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Cemitério da Bailarina - túmulos de vítimas da grande epidemia da "bailatina colurus mórbis (cólera)". Local de encontro dos Penitentes de Aurora.

Cemitério da Bailarina, Aurora-CE - Foto: Arquivo/José Cícero

Localizado no sítio Carro Quebrado na confluência de Espinheiro e Antas a cerca de 20 km da sede de Aurora, o cemitério representa por assim dizer, um imenso baú a céu aberto contendo um dos acontecimentos mais interessantes e enigmáticos do passado de Aurora.

Segundo os moradores da região; especialmente os mais antigos foram unânimes em afirmar que a origem do cemitério remonta os anos entre 1750 a 1817 quando um certo alferes Canuto oriundo da Bahia escolheu aquela região erma para acoitar cangaceiros e construir uma espécie de campo de concentração de escravos e deserdados dos mais diferentes espécimes.

Esta versão nos foi repassada pelo decurião José Pedro. Ainda segundo ele, havia uma inscrição em um dos túmulos que assinalava o óbito do sepultado de 1817. O epitáfio agora se encontra coberto pela várias camadas de tinta e cal.

Nos anos 50 o então pároco de Aurora, Monsenhor Vicente Bezerra ao tomar conhecimento do enigmático campo santo mandou cercá-lo de pau a pique e proibiu terminantemente qualquer sepultamento e plantação de lavoura. O cercado não existe mais, porém a proibição está vigorando até hoje conforme os habitantes das imediações.

A despeito das diferentes versões acerca da gênese do cemitério, a que prevalece é a que aponta para a epidemia que assolou boa parte do Cariri numa época distante.

A doença que vitimou muita gente ainda ficou popularmente conhecida na região pela alcunha de “Bailarina”, razão pela qual surgiu o nome do cemitério. Ainda, conforme eles, tratava-se de uma forte febre, seguida de tremor violento, diarréia e vômito.

A ‘bailarina’ matava o infectado em menos de 24 horas e, devido a rapidez do seu contágio o corpo tinha que ser sepultado também com celeridade. Há inclusive uma pequena histórica contada até hoje sobre uma jovem de 21 anos de nome Jacinta que após um possível desmaio, foi dada como morta. Supondo ser ela mais uma vítima da bailarina, depressa os familiares a colocaram numa rede e rumaram para o cemitério.

Chegando no local um forte temporal cobriu a região. Sem ter como realizar o sepultamento os homens decidiram amarrar a rede nas árvores e voltaram para suas casas na intenção de enterrá-la somente no dia seguinte. Meia hora depois no início da noite, a moça retorna a casa dos seus pais com plena saúde, com a rede enrolada debaixo do braço apenas reclamando do frio, sem saber o que de fato acontecera. É provável que a tal bailarina se tratava mesmo de febre espanhola ou cólera. Doenças que no passado assolaram populações inteiras pelo mundo, ganhando proporções de epidemias a pandemias. Ocasião em que até mesmo um presidente brasileiro se tornou vítima deste fatídico episódio (febre espanhola). Cerca de 14 túmulos ainda permanecem solidamente conservados, graças ao trabalho voluntário do Sr. Dé de Lisboa, que herdou esta devoção por incumbência do seu pai já falecido e que durante a vida inteira cuidou da conservação do cemitério.

Construídos de pedra, argamassa e cal, os túmulos da Bailarina são ainda hoje pintados anualmente pelo seu zelador. O terreno onde os mesmos estão localizados também é capinado principalmente quando se aproxima o dia de Finados e o local é preparado para a visita do grupo de penitentes e outros moradores da comunidade. Naqueles dias flores e velas são colocadas sobre os mausoléus como forma de adoração e enfeites. Cumpre destacar que visitas ao local é pouco comum...

Não raro são as inúmeras estórias de alma-penada, visagens e assombrações e existência de “botijas” repletas de objetos valiosos e moedas de ouro contidas no interior de algumas das catacumbas. Muitos afirmam por sua vez, já ter sonhado com esta premonição. Entretanto, falta-lhes coragem para consumar o intento de desenterrá-la, devido ao receio da maldição que poderá se abater sobre aquele que não for o escolhido, asseguram.

O cemitério da bailarina é, em última instância, uma prova inconteste de que o nosso passado permanece cada vez mais vivo no nosso presente do que supomos, suscitando assim nosso despertar para o futuro.

Finalmente, o lendário cemitério da bailarina configura-se como o bom-combate da memória contra o esquecimento.

Extraído do site http://www.aurora.ce.gov.br
Texto produzido pelo Secretário de Cultura José Cícero.
Professor, Poeta e escritor.
Aurora – CE.

Aurora

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